sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Culpar a natureza? Não é melhor ter planejamento?

Por Daniel Gomes, pela Pascom Brasilândia

Parece uma orquestra afinada de desculpas: “foi uma situação atípica, um volume de água realmente impressionante” (Sérgio Cabral, governador do Rio de Janeiro); “Cada vez chove mais... já tivemos um volume de chuva correspondente a 93% da média de janeiro dos últimos anos, o que mostra sua intensidade” (Gilberto Kassab, prefeito de São Paulo); e para fechar a partitura “tivemos uma chuva realmente excepcional” (Geraldo Alckmin, governador de São Paulo).

Resumindo: Alckmin, Kassab e Cabral dão a entender, portanto, que a principal culpada pelas enchentes e suas consequências fatais e destrutivas é a natureza. Será? E a falta de planejamento dos estados e da prefeitura paulistana, não conta?

No Estado de São Paulo, a gestão passada de Alckmin (2002-2006) conduziu um imponente processo de desassoreamento do rio Tietê na região metropolitana. Aliás, faixas à beira da marginal enalteciam “estamos há dois anos sem enchentes”.

Mas a natureza, a “teimosa natureza”, tem uma “mania natural” de usar as margens dos rios para o escoamento da água das chuvas. Só que na capital paulista, às margens de rios, em especial do Tietê, a mata ciliar foi encoberta por concreto e também por mais pistas para facilitar o trânsito, essa última obra já na gestão estadual de José Serra. Ou seja, a solução pensada na administração Alckmin, que já tinha validade limitada, ficou ainda mais restrita com as novas pistas da marginal, construídas sobre a gestão de seu colega de partido.

A prefeitura de São Paulo também colaborou para as enchentes da última semana, especialmente com a ausência de planejamento e omissão de investimentos. No orçamento de 2010, Gilberto Kassab contava com R$ 504 milhões para obras anticheias, mas só investiu 430 milhões. Por que, senhor prefeito?

No caso do Rio de Janeiro, o absurdo parece ainda ser a falta de planejamento urbano das cidades da região serrana. As prefeituras insistem em legalizar habitações em áreas de risco e as conseqüências agora aparecem nessas tragédias que já vitimaram mais de 500 pessoas, a maioria em Teresópolis, Nova Friburgo e Petrópolis.

Voltando ao caso de São Paulo, outro exemplo gritante de falta de planejamento é a dita expectativa de chuvas para o mês de janeiro, calculado pela prefeitura da capital. Segundo Kassab, a média esperada para todo este mês era de 239 milímetros (mm) de chuva. Por que esperaram por tão pouco, se no primeiro mês de 2010 choveu 480,5 mm, e no mesmo período de 2009 e 2008, os índices pluviométricos foram de 352 mm e 318 mm, respectivamente? Alguém está errando nas contas, e muito!

Construir piscinões, dessassorear rios, lagos e córregos, como anunciou às pressas o governo do Estado de São Paulo na quarta-feira, dia 12, são medidas paliativas e com prazo de validade curtíssimo, se não forem feitas em conjunto com uma revolução sustentável que envolva menos produção de lixo e entulhos, assim como a contenção do empreendedorismo imobiliário a qualquer custo que planifica terrenos naturalmente sinuosos e produz sedimentos que vão parar nos rios.

Em tempo: fica o alerta do Blog da Pascom para os moradores dos bairros próximos às regiões de Perus, Freguesia do Ó e Pirituba: na quinta-feira, dia 13, a Defesa Civil da cidade de São Paulo avisou que algumas localidades nesses bairros estão mais suscetíveis a desmoronamentos.

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