quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Manifestações de um povo tratado como lixo

Toda madrugada a cena se repetia: após a meia noite, dezenas caminhões de entulho, de todos os lugares de São Paulo, se enfileiravam na Avenida Deputado Cantídio Sampaio, à espera da abertura da Central de Tratamento de Lixo – nova nomenclatura para os conhecidos lixões - adaptada em uma extinta pedreira na Vila Brasilândia.

Antes do nascer do sol, segundo relato dos moradores da favela Clara Nunes, ao lado do lixão, começava o despejo de entulhos e o sono, já interrompido na madrugada pelo barulho dos caminhões, findava. Pela manhã, o trânsito na Avenida, no sentido centro-bairro, era prejudicado pela fileira diária de caminhões de entulho; e ao longo do dia, os moradores viam facilmente os impactos do “lixo importado”: poeiras nas casas, terras e resíduos pelas ruas e diversos problemas de saúde gerados em um ambiente sujo.

No início da noite da última segunda-feira (3), os moradores cansaram de ser tratados como parte do lixo. Cerca de 300 deles, ajuntaram os resíduos, pedaços de madeiras e pneus, atearam fogo nos materiais e paralisaram o trânsito, sempre caótico, da Avenida Deputado Cantídio Sampaio. Duas viaturas do corpo de bombeiros foram chamadas para apagar o fogo. A PM foi convocada para reprimir o movimento, e o fez com balas de borracha e bombas de gás lacrimogênio. Na tensão do conflito, os manifestantes quebraram o vidro de um ônibus. Apesar do tumulto, ninguém ficou ferido.

Nas manhãs de terça (4) e quarta-feira (5), a fila de caminhões de entulho voltou a dominar a Avenida, e o caos retornou à vida dos moradores. No começo da noite de quarta, novas manifestações. Desta vez, 200 pessoas incendiaram pneus em mais dois trechos da via e um novo tumulto se formou, sendo rapidamente reprimido pela PM. Dessa vez, a manifestação resultou em ferimentos leves em alguns manifestantes.

Pela manhã da quinta-feira (6) foi possível verificar os indícios dos protestos da noite anterior, como o asfalto queimado e os resíduos carbonizados, em trechos da Avenida Deputado Cantídio Sampaio. Duas diferenças, em relação aos dias anteriores saltavam aos olhos: havia um policiamento ostensivo nos bairros do entorno; e a habitual fila de caminhões sumiu.

É impossível prever se o problema dos moradores está definitivamente resolvido. Não será surpresa, se após a meia noite, em algum dia desses, o barulho dos caminhões de entulho volte a perturbar o silêncio das madrugadas. Certezas, nesse drama da vida real, não existem. Pelo contrário, o que há são muitas dúvidas a serem esclarecidas pelas autoridades públicas: a extinta pedreira pode funcionar como lixão? Onde está a fiscalização da “lei do silêncio” quando o barulho dos caminhões de entulho importuna o sono dos moradores da região? Caminhões estacionados na via, por tempo indeterminado não devem ser multados, como determina a Código Brasileiro de Trânsito? Por que sempre a Brasilândia é a escolhida para ser o “lixão” da cidade?

Um comentário:

UniLson MaNgini jR disse...

Olá! Sou Unilson Mangini. Trabalho com a comunicação da RECANTA - Rede de Cooperação da Cantareira. Olha, assumo que procurei e procurei sobre notícias relacionadas aos protestos na Brasilândia, mas só encontrava parágrafos escassos. Gostaria de saber se há possibilidade de eu publicar no site da RECANTA [www.recanta.org.br]este belo texto que encontrei aqui.

Se puder enviar um e-mail para mim confirmando, ficaria extreeemamente agradecido!

comunicacao@recanta.org.br

valeu!

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